sexta-feira, outubro 11, 2013



A Amizade em Aristóteles

"A amizade é uma das grandes consolações da vida, e uma das consolações da amizade é que ela nos mostra alguém a quem confiar um segredo."
(Alessandro Manzoni)

Assim como os motivos da Amizade diferem em espécie, também diferem as respectivas formas de afeição e de amizade. Existem três espécies de Amizade, e igual número de motivação do afecto, pois na esfera de cada espécie deve haver "afeição mútua mutuamente reconhecida".
 Aqueles que têm Amizade desejam o bem do amigo de acordo com o motivo da sua amizade; desse modo, aqueles cujo motivo é a utilidade não têm Amizade realmente um pelo outro, mas apenas na medida em que recebem um bem do outro.
 Aqueles cujo motivo é o prazer estão em caso semelhante: isto é, têm Amizade por pessoas de fácil graciosidade, não em virtude de seu carácter, mas porque elas lhes são agradáveis. 

Assim, aqueles cujo motivo da Amizade é a utilidade amam os seus amigos pelo que é bom para si mesmo; aqueles cujo motivo é o prazer o fazem pelo que é prazeroso a si mesmo; ou seja, não em função daquilo que a pessoa estimada é, mas na medida em que ela é útil ou agradável. Essas Amizades são portanto circunstanciais: pois que o objecto não é amado por ser a pessoa que é, mas pelo que fornece de vantagem ou prazer, conforme o caso. Tais Amizades são de fato muito passíveis de dissolução se as partes não permanecem iguais: isto é, os outros cessam de ter Amizade por eles quando deixam de ser agradáveis ou úteis. Ora, a natureza da utilidade não é de permanência, mas de constante variação: assim, quando o motivo que os tornou amigos desaparece, a Amizade também se dissolve; pois que existia apenas em relação àquelas circunstâncias...

A perfeita Amizade é a que subsiste entre aqueles que são bons e cuja similaridade consiste na bondade; pois esses desejam o bem do outro de maneira semelhante: na medida em que são bons (e são bons em si mesmo); e são especialmente amigos aqueles que desejam o bem a seus amigos por si mesmo, porque assim se sentem em relação a eles, e não por uma mera questão de circunstâncias; assim, a Amizade entre esses homens permanece enquanto
eles são bons; e a bondade traz em si um princípio de permanência…
São poucas as probabilidades de Amizade dessa espécie, porque os homens dessa espécie
são raros. Além disso, pressupõem-se todas as qualificações exigidas, essas Amizades exigem ainda tempo e intimidade; pois, como diz o provérbio, os homens não podem se conhecer "até que tenham comido juntos a quantidade de sal necessária"; nem podem de fato admitir um ao outro em sua intimidade, muito menos serem amigos, até que cada um se mostre ao outro e dê provas de ser objecto apropriado para a Amizade.



Aqueles que iniciam apressadamente uma troca de gestos amigáveis querem ser amigos mas não o são, a menos que sejam também objectos apropriados para a Amizade e se reconheçam mutuamente como tal: ou seja, o desejo de Amizade pode surgir rapidamente, mas não a amizade propriamente dita.

 Texto preparado por LMC.




quarta-feira, setembro 04, 2013



HOJE...

"(...) Vivemos no crepúsculo de um mundo des-sacralizado, profanizado, de um mundo em vias de liquidação e que, talvez por isso, se des-sacraliza ainda mais.
Simultaneamente, sentimos anunciar-se a aurora de um mundo outro, diferente.
Ora neste tempo intervalar - tempo de crise no significado mais original de acção discriminadora de valores -, as circunstâncias exigem um valor pessoal irrecusável: intensidade de vida sobrenatural vivida, cultura ampla e sólida, competência profissional, energia de decisão, iniciativa criadora. Só assim as trevas poderão ser iluminadas, só assim se poderá agir junto da frouxa vontade dos homens, só assim se poderá contribuir eficientemente para a modificação das estruturas. (...)"

Manuel Antunes, Do Espírito e do Tempo.



Uma educação para amanhã
(...) Quando deixado, a si, ao seu bel-prazer e aos seus instintos, o indivíduo é susceptível de produzir esses monstros de egoísmo, de caprichismo e de criminalidade cujos «feitos» os modernos meios de comunicação social são tão fecundos em explorar. Quando manipulado pelo grupo, graças a técnicas cada vez mais aperfeiçoadas, é passível da acção de massas sujeitas às leis, quase físicas, da mecânica e da dinâmica sociais e produzir esses monstros colectivos a que uma prática excessivamente frequente neste século já pouco menos que nos habituou.
O homem «forma-se pessoa», quer dizer: evolui para um ser realmente humano pelo seu desenvolvimento como consciência e como liberdade. Ser quase indefinidamente moldável, o homem só se erguerá homem, na e para a «humanitas», se as suas capacidades de conhecimento, de decisão, de autodeterminação, de escolha, de responsabilização, forem tomadas a sério.
Essa tomada a sério determinará, em boa parte, a qualidade do mundo de amanhã. Mundo da quantidade pela força, quase fatal, das coisas -

quantidade de homens, quantidade de produtos e artefactos,  quantidade intensiva na
reciprocidade das relações de tudo e de todos - importa sobremaneira que semelhante quantidade seja dirigida e orientada pela qualidade.
Mas - verificação banal - só o será na medida em que o homem se encontrar qualificado, precisamente como homem. Não como técnico, profissional ou burocrata - a máquina poderá realizar não poucas coisas melhor do que ele - mas como ser activo, portador e criador de ideias e de valores, de formas e de conhecimentos novos, de estilos e de sentimentos de vida
verdadeiramente humanizadores.
Sendo assim, educar para amanhã não será tanto formar homens para a ciência e para a tecnologia quanto formar homens que, pela ciência e pela tecnologia e, mais além da ciência e da tecnologia, sejam humanistas, filósofos, moralistas, organizadores e animadores
espirituais de um mundo que pode não chegar a saber em que empregar a própria riqueza material como hoje, em parte, já o não sabe.

Manuel Antunes, Educação e Sociedade, Lisboa, Sampedro, 1973






Para Onde Caminhamos Na Educação

A nossa sociedade mudou, temos uma inversão de papeis e valores, mais informação do que podemos absorver, a mulher trabalha fora, o avanço tecnológico foi grande, a família mudou, a criança mudou, o aluno e a escola também mudaram....Tanta mudança gera confusão e expectativas.

 Os pais buscam proteger os filhos das mudanças, os pais estão a oferecer proteção excessiva, ao invés de desenvolver as capacidades dos filhos para que eles vençam na sociedade. A família está perdida e acha que a escola é que tem que educar seus filhos. A família é responsável pela educação e a escola, pela formação de habilidades para competências na vida adulta. 


Neste contexto, o melhor que podemos fazer pelos  nossos filhos é sermos consistentes na sua formação desde bem pequenos, a frustração, o não dito com firmeza, as tarefas diárias, o dinheiro regulado, o tempo bem distribuído, entre outros limites, favorecem a consciencialização civica.
 Mas, nada disto terá qualquer significado se não for mediado pelo exemplo dos adultos; os  filhos são frutos do meio, porém é na relação familiar que os verdadeiros valores se formam e se consolidam. 

De nada adianta aos pais darem limites, como assistir à tevê só em determinadas horas, proibir certos tipos de música, cobrar respeito ao próximo, exigir que não digam asneiras, palavrões, se eles burlam as leis e os valores morais e adotam a postura: "faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço". 

As suas atitudes valem mais que mil palavras. É necessário buscar ações simples e concretas que possam ajudar os filhos a assumir responsabilidades de forma coesa e correta, como por exemplo: pedir aos filhos, principalmente os menores, para que ajude com os afazeres (guardar os brinquedos, limpar a mesa ou guardar a roupa limpa), comentem com eles os programas e as musicas atuais, coloque-os a par da realidade financeira da família. O Jovem que aprende a ter responsabilidades desde pequeno, sai melhor na escola e na vida! Recorda: "a palavra convence, o exemplo arrasta". Devemos ser um modelo a ser seguido, que lê, e acha a aprendizagem emocionante, gosta de resolver problemas, tenta coisas novas e que se respeita a si mesmo, o outro e as regras da sociedade. 
 
Na relação com a escola, devemos estar seguro da escolha que se faz e dár espaço para a escola trabalhar. Demonstrar respeito tanto pelo sistema escolar quanto pelo professor. As acusações verbais contra a escola podem engendrar nos jovens alunos sentimentos contrários à escola e dar a ele um pretexto para não se esforçar. 

Mesmo quando não estiver de acordo com uma política da escola, é seu papel estimulá-lo a obedecer às regras da escola, assim como precisarás obedecer às regras mais amplas da sociedade. Caso estejas descontente com a escola, procura o responsável e conversa com ele. LMC






quinta-feira, julho 18, 2013



SOBRE A VIDA, AMOR E A SOLIDÃO


“São os sentimentos e as atitudes que promovem a ajuda, quando expressos, e não as opiniões ou os julgamentos que fazemos sobre a outra pessoa”. Carl Rogers

Sem vida não há ser, sem amor a vida torna-se apenas um lamento amargo existencial e sem compreender a solidão como uma necessidade de encontro silencioso a vida perde o seu sentido.

O ser humano vive a ânsia da vida. Num momento sonha em viver ansiosamente no presente como se fosse perdê-lo. Em outros momentos é escravo do desejo do futuro e esquece que não tem como garantir o amanhã, a não ser esperá-lo pacientemente, serenamente. Estamos a viver uma crise existencial que se repete, entre a ansiedade motivada pelo medo, insegurança e cobrança de todo o tipo de coisas e por um sentimento colectivo de vazio, de solidão, sentir-se só no meio da multidão.

Tudo na nossa vida e na natureza há um sentido sábio, é preciso que passemos a ver com outros olhos aquilo que aparentemente não estamos a conseguir ver devido aos condicionalismos provocados pela normose (normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais). Tudo na vida tem razão de ser, uma lógica, um motivo, mas, nem sempre o percebemos. Isso é o óbvio, o génio percebe o óbvio e consegue produzir coisas fantásticas, enquanto que o neurótico não percebe.

O ser humano necessita de um cuidado especial, diferente das máquinas, dos equipamentos tecnológicas… O ser humano vive um eterno conflito entre o desejo de voar e o medo de tirar os pés do chão. O medo de ser alguém que vai incomodar muita gente e o Zé-ninguém desconhecido, que anda deambulando pela vida sem se importar de nada, nem de ninguém.  

Leonardo Boff diz: o ser humano é um ser de desejos, incansável, queremos tudo, queremos viver para sempre, somos protestantes, protestamos contra tudo e todos. Não conseguimos silenciar e acalmar a nossa mente que vive numa turbulência inesgotável, todos os dias alimentamos essa turbulência mental. 

Krishnamurti diz que: vivemos continuamente numa guerra contra a nossa mente, que é o nosso intelecto. E para entendermos e educarmos a nossa mente temos que buscar recursos fora da mente. E o maior recurso que todos temos é o AMOR. Mas, o que é o AMOR? Só o amor pode unir as pessoas, e não o pensamento. Onde há amor, não há grupo, classe, nem nacionalidade, nem religião. Será o AMOR uma coisa da mente? Ele é uma coisa da mente quando as coisas da mente preenchem o coração: opiniões, ideias, preconceitos, visões distorcidas da realidade, crenças. Mas o AMOR é muito mais, só pode ser vivenciado quando o pensamento não está a funcionar, sereno, calmo, dando permissão ao coração para sentir o amor. O amor é a resposta para aquietar, serenar a nossa mente, reduzir a nossa ansiedade e entender a nossa solidão, que não é algo tão ruim quanto se fala. Estar só é uma oportunidade de encontro consigo mesmo. Quando estamos sós é porque dissociamos, nos dividimos, perdemos a integração do espírito, da mente, do corpo e aí surge o vazio. O que temos que fazer não é buscar preencher esse vazio que nos está a incomodar, mas sim entendê-lo, interpretá-lo, buscar o seu significado. Só é possível pensar de modo correcto, viver livre e em plenitude e inteligência, quando há um auto-conhecimento cada vez mais profundo e mais amplo da pessoa. 

Amar autenticamente é promover a integração. Apenas o amor e o pensar correcto farão a verdadeira revolução interior. Precisamos aprender a caminhar pela vida de forma saudável e feliz, nós merecemos. A solidão assim como a doença pode ser um caminho amadurecido para uma vida melhor, é preciso termos a coragem de aprender com ela e não apenas rejeitá-la. LMC